• Camila Mabeloop

Procura-se um propósito

Você provavelmente já se sentiu perdido na sua carreira. Pode até estar se sentindo assim agora. A maioria das pessoas passa por momentos como esse e comigo não foi diferente.


Em 2010 criei um blog, eu tinha 14 anos, e por anos me diverti muito com todas as partes de administrar um blog (contarei mais sobre isso em outro artigo), mas, durante a faculdade, meados de 2015, comecei a sentir que estava estagnada. Não sabia mais qual caminho seguir e o que deveria fazer.


Eu não ganhava muita grana com o blog, fiz um dinheirinho ou outro. Mas tinha construído algo legal com a minha imagem. Apareci na TV, fiz palestras, dei entrevistas para jornais como a Folha de S. Paulo, sai em revistas e até ganhei um prêmio de blogs da Capricho.


Foi uma decisão meio dolorosa, pois sabia que começar a fazer estágio e estudar ocuparia todo meu tempo. O blog ia morrer. Mas na verdade, ele já estava morrendo. Eu queria algo novo. Sempre fui movida pela novidade.


Enviei vários currículos e nada. Algumas empresas até davam retorno, mas sempre negativo. Até que um dia, fui parar em um processo seletivo em uma empresa que era parceira do meu blog. Isso em setembro de 2016. Mesmo no meio de mais umas 10 pessoas que tinham viajado o mundo, falavam inglês fluente, estudavam em faculdades famosas de São Paulo… consegui a vaga.


O gás veio com tudo. Eram muitas novidades. Eu tinha trabalhado apenas dando algumas aulas de inglês para crianças e depois também dei aula de informática em uma escola particular aqui da minha cidade. Foram trabalhos reais, ganhava dinheiro e tinha compromissos. Mas eu não tinha uma rotina na empresa, nem tinha que lidar com as pessoas, tarefas e prazos. Eram trabalhos bem independentes.


Mas quando cheguei nesse meu primeiro estágio, pirei. Tudo era novo. As coisas que estava aprendendo, o nível de exigência, o stress em lidar com outras pessoas diariamente (essa pra mim foi a parte mais difícil). Eu estava feliz em ter saído de casa, sabia que aquela experiência era necessária para me reencontrar no futuro.


Mas em um mês eu estava esgotada. Derrotada.


Lá foi meu primeiro contato com o marketing. Eu, que estudava jornalismo e tinha um inglês meia boca, não fazia ideia do que era startup, e-mail marketing, SEO, briefing, budget, lead, target, funil, e trezentas mil palavras que os publicitários iam jogando no meio da conversa e eu tentava anotar tudo para pesquisar depois.


Aprendi muito, mas queria morrer diariamente com tanta coisa entrando na minha cabeça. Cheguei a falar para o meu chefe: “não consigo. Não entendo nada de publicidade. Não dou conta.” Chorei na frente dele de tanto desespero. Na época eu achava que só queria escrever uns negócios legais, colocar em prática as dicas que estava aprendendo na faculdade ou voltar para o meu blog. Mas meu chefe virou pra mim, com uma calma que eu nunca tinha visto antes e falou: “você está indo bem, não é hora de parar ainda. Vamos continuar”.


Continuamos, mas já falei que era uma startup? Acho que não. Mas era, e eu era do time de marketing. Sendo assim, vocês podem imaginar que eu trabalhava o dobro de horas por dia. Levava tarefa para casa, trabalhava no fim de semana, não tinha fim. Eu nunca tinha pegado exame na faculdade, e pela primeira vez, peguei três. Foi caótico. Então decidi que deveríamos dar um tempo.


Fiquei um período só estudando, depois fui trabalhar em um lugar que não tinha ⅓ de serviços comparado ao anterior e quase nada de criação e conteúdo. Desespero novamente. Depois de uns meses, fui convidada a voltar a trabalhar com a primeira empresa, mas em um projeto diferente. Adorei. Coloquei em prática tudo o que aprendi com o blog e já não estava mais perdida com os termos publicitários (apesar que sempre surge um jargão novo em inglês). Mas aí vieram novos incômodos.


Sentia que não estava aprendendo o suficiente no meu trabalho. Morava há duas horas de distância de transporte público, então, pelo menos quatro horas do meu dia eu estava amassada no trem entre a região do Alto Tietê em SP até a região oeste da cidade. Não tinha tempo e nem forças para buscar por novidades.


Então, mais uma vez, saí do emprego. Não foi só isso, claro, outros fatores influenciaram nessa decisão, que foi bem difícil pra mim. Eu que, aos 23 anos e recém-formada na faculdade, tinha a oportunidade de ter um salário fixo, vale alimentação, refeição e transporte, não estava achando aquilo o suficiente. Como pode?


Um grande privilégio não achar isso suficiente e poder largar tudo.


No primeiro semestre da faculdade comecei a sonhar em trabalhar em dois setores: editoras de livros ou revistas teens. Consegui e ainda assim, quis largar. Sabia que não iria encontrar outra coisa tão fácil, meus colegas da faculdade estão batalhando por trabalhos. Não tinha quase nenhum dinheiro guardado, apenas um computador que parcelei no cartão antes de sair.

Mas precisava encontrar meu propósito. E não é que as empresas em que trabalhei não tinham, eu só não me conectei com eles.


O Maurício Benvenutti, autor que tive o prazer de conhecer pessoalmente, me explicou muito do que eu estava sentindo em seu segundo livro, o Audaz. Em uma das minhas passagens favoritas, ele disse assim:


“Estamos diante de uma geração que não se entrega mais por um contracheque no final do mês. Ela quer um propósito.”


Texto publicado originalmente em 10 de março de 2019 no meu LinkedIn.

8 visualizações
This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now